quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

fleurs du...







Esse post é só para me lembrar que eu não gosto de admitir que gosto de desenhos e de desenhar, mas esses desenhos ou ilustraçõs valem qualquer comentário chacoteiro posterior.

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

para sempre sábado.

Nunca entendeu muito bem aquela casa, sala verde cheia de cetim e veludo escuro, um cachorro pequinês-piranha que morava na janela e tinha nome de banda de rock, uma mesa de centro com potes de prata e pedras vermelhas, carpete macio na cor bege e um espelho que cobria quase toda a extensão da parede. Da sala para a cozinha tinha uma pia, um dos momentos mais incríveis da casa pois a saboneteira dela era mágica, ficava pendurada e mantinha o sabonete suspenso como um pêndulo, coisa que certamente só existia ali, naquela casa. A cozinha com uma mesa era de vidro que tinha sido feita para espremer a mão no fundo e passar um bom tempo contando as linhas da vida, do amor e da saúde.
Mas a melhor hora era quando a moça de tranças e voz macia anunciava com delicadeza "e agora na passarela..." e surgia por detrás da porta alguma garotinha de lábios encarnados, pinta preta perto do nariz, sapatos de salto alto ladeada por um pastor alemão de nome Terenso. Não era possível saber quem seguia quem, se era a garotinha ou o Terenso. Passavam horas assim, enquanto no andar de baixo alguém discutia algum assunto que não era bala, salto alto ou boneca.
Nunca conseguiu lembrar como o desfile acabava, sabia apenas que o homem de cabelos cinzas e lisos sempre lavados e que ao final de cada visita lhe dava uma bola de tênis era quem a carregava para o carro.
Nunca mais voltou naquela casa e nunca cansou de tentar entendê-la, sabia que para sempre da janela do quarto a mulher de cabelos pretos e lisos estaria ali acenando e esperando o próximo sábado.

domingo, 23 de dezembro de 2007

mais uma vez amor...

Era grande demais para a cadeira, tão grande que ao sentar ela bambeou um pouco e quase quebrou. Passado o primeiro susto, trocada a cadeira por outra igualmente pequena tirou um livro da sacola e por ali sozinho ficou lendo um livro de título indecifrável. Era divertido ao longe, tentar adivinhar que livro lia, auto-ajuda, mistério, biografia, ficção, doído, água com a açúcar, didático, chato, de desenho, de qualquer coisa.
Pela capa parecia um livro de fotografias, talvez a mancha preta fosse um homem. Um livro gay quem sabe. Definitivamente era melhor esquecer uma paixão instantânea de olhos claros, cabelos loiros que lê na praia e toma mate sem limão. Esquecer para não sofrer, óbvio afinal de contas a concorrência seria desleal.
Preferiu pensar no mar e no que poderia existir além dele, esqueceu. O sol quente ardia um pouco as costas, secava a boca, fazia com que os grãos de areia brilhassem nos pés igualmente quentes e secos. Era chegado um dos seus momentos preferidos, ficar parada onde a onda morre e sentir a água vindo cansada e devagarinho acariciando seus pés, sentia a areia sob os pés sendo levada embora e era como se o chão se abrisse e sentisse cócegas ao invés de medo.
Gostava do chão se abrindo aos seus pés, talvez por isso procurava sempre onde sentia mais dor. Devagar entrava no mar e aos poucos subia pelos pés um linha gelada que era como se seus ossos estivessem sendo retorcidos. Quando molhou a cabeça acostumou-se, não sentia mais frio e se conseguisse se manter longe da área de arrebentação poderia permanecer o dia todo ali, boiando e pensando em nada, ou pensando que talvez aqueles olhos claros não estivessem lendo um livro gay.
No limite da honra - era sempre bom impor-se limites, decidiu que ficar boiando a toa não levaria a nada. E definitivamente não poderia carregar aquela dúvida eterna. Foi quando encheu-se de coragem e poderia até passar por louca, mas perguntaria para o homem grande da cadeira pequena que livro era aquele. Saiu correndo do mar, mentindo para si mesma que a corrida era fruto da coragem. Mas sabia que a onda que vinha atrás dela era grande o suficiente para um afogamento imediato.
Afobada, ao chegar na areia, por precaução decidiu descansar um pouco. Pois era melhor ser uma louca calma do que uma louca esbaforida. Recomposta levantou calmamente e quando estava aproximando-se da cadeira pequena para um homem grande, previu que o melhor a ser feito era tomar uma ducha e tirar o sal do corpo. Pois era melhor ser uma louca insossa do que uma louca salgada. Além do mais poderia permanecer com sua pose de pessoa normal, caso o rapaz grande fechasse o livro de modo que fosse possível ler o título.
Pois bem, praia cheia, mar imenso e a fila da ducha era maior e mais lenta do que qualquer fila do metrô sé. Calmamente pensou em dar um viva para a água doce, também não gostava do gosto salgado da água do mar. Quando finalmente chegou sua vez, já nem sabia mais o porque estava ali. Olhou para frente e viu os olhos mais azuis do mundo, no rosto do homem grande da cadeira pequena. E por alguns segundos era como se não existisse mais nada, apenas o ódio que sentia por ele estar ali na frente dela sorrindo sem o livro e mais uma vez para sempre ficaria com a dúvida.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Casa Band-Aid









Poderia iniciar agora mais uma série, "mamãe sou arquiteta..." mas acho que essa casa não cabe em série nenhuma. Passo por ela todos os dias, quando estou perto da janela, inevitavelmente fico olhando e sem mais nem menos descubro sempre alguma coisa nova e surpreendente.
A primeira vez que reparei nela, foi por causa do "Cata-vento" que na verdade tem outro nome que eu não me lembro qual é. Ele me lembrou um livro que li quando tinha uns 13 anos e chamava-se "Anarquistas, Graças a Deus" que é da Zélia Gattai que é a mulher do Jorge Amado e que quando pequena morava na Alameda Santos na única casa da rua que tinha um desses "Cata-Ventos". É um livro de memórias que de certa forma reconstitui uma São Paulo que eu nunca vi e hoje em dia fuçando meu baú cerebral acho que ele contribuiu para essa mania que tenho de memória e coisas velhas.

Depois, passado o encantamento com o "Cata-Vento" comecei a reparar na quantidade de materiais de acabamento usados nela em alguns pontos e na falta dos mesmos em outros lugares da casa. É uma casa-remendo, uma área descoberta que vira quarto, o telhado da loja vizinha que vira palco para a menininha que dança aos finais de semana, a caixa de correio toda colorida etc. E eu penso em quantas garotinhas dançam na laje da própria casa enquanto o avô faz alguma melhoria no acabamento da casa e no quanto as pessoas gostam e precisam disso. É o azulejo que imita porcelanato e o porcelanato que imita mármore, que imita madeira e assim por diante até o infinito. Quando volto para casa, eu sei que não a acho bonita e nem harmonica, não vejo qualquer senso estético nela mas as vezes me dói o coração de pensar que se algum fiscal da prefeitura passar por ela vai aumentar e muito o IPTU. Mas enfim, isso é só uma das coisas que ocupam a minha vida.

domingo, 16 de dezembro de 2007

Se havia alguma coisa no mundo que a irritasse, era sandália em dia de chuva. Odiava sentir seu pé molhado grudando na palminha da sandália que lhe era tão querida. Sentia nojo do próprio pé, da areia que entrava e pensava sempre que no dia seguinte morreria de leptospirose.
Assim, com cuidado andava na ponta dos pés na calçada irregular, cheia de poças, bitucas de cigarros molhadas, papel de bala etc. Tal visão só contribuía para o nojo que sentia. E como se não bastasse a visão do inferno que tinha aos pés, a dor na batata da perna por andar na ponta do pé já por cinco quarteirões e a barra da calça, que molhada, encostava frequentemente na pele aumentando ainda mais o nojo que sentia do mundo e de si mesma, alguém com os sapatos fechados pisou em uma poça espalhando água suja para todos os lados e destruiu em menos de 5 segundos todo o sacrifício de cinco quarteirões. E ali o que eram pés úmidos e com um nível de higiene razoável, agora não pasavam de viveiros de todo o tipo de sujeira do mundo.
É, definitivamente aquele não poderia ser um dia de sorte. Dobrou a esquina, sem acreditar muito na vida e ao longe viu uma figura disforme, que andava com passos certos. Sumia e reaparecia no meio da multidão e quando não havia mais ninguém que lhe impedisse a visão, descobriu que a tal figura disforme na verdade era um casal abraçado. A visão a princípio lhe causou um sentimento de posse lá no fundo, pequeno e imperceptível se ela fosse adepta da linha "trator", mas confessou a si mesma que o que sentiu olhando ao longe o casal, foi um sentimento de inferioridade. Sentimento que sentia há tempos, mesmo antes. Mesmo quando era um casal. Não dava para voltar atrás e explicar tintin por tintin que na verdade gostava disso ou daquilo e achava isso ou aquilo do mundo, não fazia muito sentido. Não dava também para carregar um fantasma pela vida toda, mas também não dava para resolver aquilo do dia para noite. Mas já contavam muitos dias e noites.
Quando entrou no vagão, ainda pensava em soluções doces e tranquilas para o que sentia. E não sei se pelo gosto doce, pelo vagão verde, se pela música cantada de forma tão fiel ao sentimento que dizia e mesmo olhando para o senhor de terno que metodicamente tirava meleca do nariz e não se incomodava em ser flagrado em momento tão íntimo, voltou a acreditar na sorte.
Mas para ela, naquele instante, a sorte e coincidência eram quase a mesma coisa. Olhar o homem tirar meleca do nariz a fez lembrar do outro homem que encontrava sempre em momentos íntimos dele, ele morava perto de um muro caiado e sempre as 08h45 da manhã escovava os dentes com o dedo indicador usava como pia uma garrafa de coca-cola 2L. Garrafas lhe eram muito úteis, as vezes com líquido amarelo, as vezes com líquido branco e até com refrigerante. E aquilo, de ver dois homens em momentos íntimos no mesmo dia era uma grande coincidência e uma sorte meio torta, mas ainda assim sorte.
Quando acreditou com mais força e vontade em sua "teoria do dia" sobre "as irmãs: Sorte e Coincidência", pensou no verde, mas não no verde do vagão.
E ao pensar de novo ficou em dúvida, talvez a cor não fosse verde e sim azul. E pensou tanto e tanto que sua teoria tornou-se real. Poderia não durar muito tempo e por antecedentes não duraria mesmo, mas era a vida que pulsava de novo.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

eu não me importaria


Eu também não me importaria nem um pouco de ter 60 anos, morar no Wozoco e todos os dias acordar e ver o mundo através de um vidro laranja ou pink.

Eu também não me importaria nem um pouco de ter 60 anos, morar no Wozoco e todos os dias sentar em baixo do "chapéu de sol" preferido.

Eu também não me importaria nem um pouco de ter 60 anos, morar no Wozoco e todos os dias escutar repetidamente versos como "I’d pay to visit you on rainy Sundays/I’ll maybe tell you all about it someday".

Eu também não me importaria nem um pouco de ter 60 anos, morar no Wozoco e todos os dias comer quilos e quilos de marzipã em formato de urso, fruta ou peixinhos.

Eu também não me importaria nem um pouco de ter 60 anos, morar no Wozoco e todos os dias sorrir para o garoto de 6 anos que desce pela porta da frente do ônibus segurando a mão da irmã mais nova.

Eu também não me importaria nem um pouco de ter 60 anos, morar no Wozoco e todos os dias achar engraçado quem passa grande parte do tempo imaginando como seria se as pessoas ao invés de pés tivessem rodas e fizessem xixi pelo dedo indicador.
Eu também não me importaria nem um pouco de ter 60 anos, morar no Wozoco e todos os dias limpar controles-remoto, interruptores, organizar livros por cores e roupas por tempo de uso, colecionar caixinhas de todos os tipos e passar o resto do tempo me perguntando quem inventou o sistema de numeração das casas.

sábado, 8 de dezembro de 2007

Creio

Há bons anos ela era a personificação da música, por uma pedra falsa um sonho de valsa ou um corte de cetim, hoje em dia não passava de uma senhora sempre vestida toda de preto, luvas de estampa de tigre e um cabelo longo e crespo preso em uma interminável trança embutida. O rosto cheio de pó de arroz, que tinha rugas profundas e dentro dessa profundezas camadas e camadas de pó de arroz que ia acumulando-se ao longo dos dias, ao longo dos anos por ela que se sabia como falsa asseada.
Mas naquele mesmo rosto enrugado e mascarado por uma cortina espessa de pó de arroz, havia ainda o que sobrou de lábios carnudos cor escarlate e olhos pretos e eternos.
Seu rosto era um museu de marcas e mostrava escancaradamente para todos que por algum instante a olhavam, o que ela poderia ter sido e não foi. E para comemorar diariamente o que poderia ter sido, realizava com afinco e esmero um ritual que consistia em: acordar na hora do almoço, esticar com método os lençóis amarelados de linho egípcio, e trancar-se no banheiro todo azul com grandes manchas de mofo no teto e algumas rodelas brancas, mistura de pasta de dente e maquiagem, na pia grande. Passava horas maquiando-se frente a um espelho embaçado preso ao armário por quatro parafusos de cabeça de cristal, quebrados todos eles em alguma parte. E saía dali com o rosto borrado, mas isso era culpa do espelho embaçado de sujeira e não das suas mãos tremulas.
Às cinco da tarde, religiosamente, sentava-se sempre na mesma mesa de bar que lhe dava um ótimo ângulo de visão da avenida apressada em frente e do cemitério ao lado. Saboreava com gosto a primeira das três latas de cerveja que tomava todos os dias (e noites). E ao primeiro gole e ao primeiro sinal de transeunte que lhe chamasse atenção, por um motivo qualquer como a cor laranja da camisa ou o bordado rechilieu da saia, lembrava-se dele.
Ele que nunca encaixou-se bem na letra de cortes de cetim, ele que nunca havia desejado uma mulher do Dao-, ele que só usava camisa com bolso e tinha os cabelos mais assimetricamente alinhados que já vira, ele que lhe dava o direito de perdoar-se todos os dias de manhã, que fazia com que ela gostasse do próprio cheiro e que apesar de toda a dor que lhe mostrava a fazia enxergar e acreditar em um mundo só visto através dos dançarinos estampados na embalagem de bombom.
Ele que durante o dia carregava para todos os lados uma padiola, cheia de terra, flores e velas e que todas as noites rezava com sinceridade por todos que enterrava, ele para quem ela nunca teve coragem de dizer que gente como ela sempre saía apressada de festas e de amores para nunca ter que verbalizar qualquer sentimento.
Ele que todos os dias as cinco da tarde, enquanto ela ainda de costas para avenida e para o cemitério, arrumava com esmero a cadeira para sentar-se, saía vagaroso pelo portão do mesmo cemitério antes de terminar o terceiro 'creio'.