quarta-feira, 26 de setembro de 2007

baixinho-gordito-babaca

Era o típico babaca. Trocava o toque do celular no ônibus, mas antes ia escutando cada uma das 307 opções de música. Aparava as unhas com tesourinha. Se alguém, depois da meia-noite lhe dissesse 'até amanhã' ele dizia: 'até amanhã não, até logo'.
Baixinho, barrigudo, com entradas na testa e um buraco na parte de cima da cabeça. Lia sempre a parte de esportes do jornal, com o dedo na folha para não perder a linha. Ficava sempre com as pontas dos dedos sujas e de dentro da mochila tirava um lencinho de papel e limpava meticulosamente os dedos gordos e pequenos.
Sem educação, nunca tirava a mochila das costas para passar no ônibus lotado. Com mania de grandeza, típico de homens baixos arrogantes, não tinha medo de algum grandão um dia irritar-se com o espaço ocupado pela mochila.
Toda vez que o via sentia nojo. Se estivesse sentado, ao longe xingava-o em pensamento. E como era prazeroso aquilo, mentalmente descontava nele todas as pequenas tristezas diárias. Baixinho-filho da puta, babaca-imbecil, otário-escroto, levanta-logo-essa-bunda-gorda-que-eu-quero-sentar-seu-babaca. Enchia a boca pra falar "seu babaca", adorava aquela palavra.
Um dia, extasiada de tanta felicidade em xingá-lo percebeu que sorria para ele. Sorria seu melhor sorriso, distraída e feliz, recebeu de volta um sorriso triunfante junto com uma "piscadinha". Naquela manhã amaldiçoou o mundo com tal intensidade e verdade que sabia que mais hora menos hora o Universo, Deus, Alá, ou o capeta iriam castigá-la. Seu estômago embrulhou, o mamão do café decidiu voltar pelo caminho da vinda e tudo, definitivamente tudo a fazia lembrar daquele sorriso-piscadela repugnante.
A partir desse dia sentia calafrios todas as vezes em que subia no ônibus ele sempre estava lá. De repente o mundo tornou-se um lugar inabitável, no qual a única pessoa que existia era ele sorrindo. O resto eram hologramas, meros figurantes em sua paranóia baixinha, gordinha e careca. Quando não o via por inteiro, via partes: as mãos gordas, a careca proeminente, a mochila preta ou o toque do celular.
Aquilo já era demais resolveu fazer baldeações, voltar a pé, pegar metrô, adotar outros caminhos para casa. Mas não adiantava ele sempre estava ali em algum lugar, atrás de uma árvore, andando ao lado, lá na frente, daquele moço que há minutos passou por ela e levou seu coração, dentro da pastelaria, vendendo bijouteria na rua, limpando o chão do prédio e até guiando um cego. Era a personificação do Bugu.
Depois de uma semana, cansada e derrotada desistiu. E ali para a sua supresa, ali no ônibus de sempre ele lhe entregou um bombom com um bilhete que dizia: "Se essa rua fosse minha, eu mandava ladrilhar, com pedrinhas de brilhantes para o meu amor passar. Nessa rua tem um bosque que se chama solidão, dentro dele mora uma moça que roubou meu coração. - Meu coração já foi roubado, moça. Sou casado."

terça-feira, 25 de setembro de 2007

mamãe sou arquiteta e decidi mostrar a você, o que me revolta...

Chega de elogiar, agora vou exercer um dos meus melhores atributos: reclamar. Para começar segue link http://www.vitruvius.com.br/drops/drops06_09.asp, com uma imagem catastrófica.


Meu lado autoritário sempre acha um absurdo, meu lado bonzinho sempre pensa: "Poxa, é a casa do sujeito. Ele faz o que bem entende." Óbvio que não é bem assim, quando se analisa as leis relacionadas à Patrimônio Histórico o imóvel com valor histórico, artístico, cultural etc pertence à sociedade e não mais ao indivíduo. Teoricamente elas são bem interessantes, por exemplo se o bem tombado precisar de alguma reforma urgente para não tombar de vez o estado cobre os gastos. Mas na prática isso é um processo tão lento, demorado e cheio de tantas comprovações que o bem cai mesmo. Existem casos em que os proprietários ao pressentirem a possibilidade de tombamento do imóvel, tombam o imóvel de fato e criam um estacionamento no local. (eba!)

No caso do link foi pior, pois ainda veio um arquiteto e deu uma "mexida" na fachada transformando-a num troço neoclássico. Eu fico pensando no arquiteto e em como ele se sentiu fazendo isso ou se ele nem sabia o que estava fazendo ou se ele ganhou bem ou se ele odeia o Oswaldo Bratke. Não cheguei a nenhuma conclusão que fosse justificável. Se fosse por dinheiro, eu em minha fase assalariada miserável até daria um desconto, talvez o cara tenha 6 filhas e todas elas querem uma Barbie nadadora, mas acho que mesmo assim não vale a pensa sujar o próprio nome (pode ser que ele tenha criado um heterônimo)

O engraçado disso tudo é que o cara que mandou a foto é um outro arquiteto, de Curitiba que em 2002 quando estive no meu primeiro ENEA (que foi em ctba), o vi falando de Patrimônio e me interessei pelo assunto. Mas esse parágrafo é só pra registrar minha nostalgia.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

poema de perna quebrada ou sobre como eu não sei fazer poema.

todo verso bobo,
que eu penso em escrever,
ja tem dono.
pensei num soneto,
pensei numa quadra,
pensei até num hai cai,

desisti.
apaguei a luz do quarto,
guardei o escuro pra mim.

domingo, 16 de setembro de 2007

Sábado no carro

Apesar de tanta tecnologia de tantas formas de divertimento, de tantos jeitos diferentes de passar o tempo, ali naquela cidade todo sábado a noite seu programa de rádio era escutado pela maioria da população. Ninguém entendia ao certo qual o domínio que aquela voz exercia sobre as pessoas do local, mas que todos paravam e lhe escutavam aos sábados isso era fato. As músicas aos sábados a noite eram sempre alegres, animadoras e encorajadoras para uma possível festa, uma possível alegria besta e inventada.
Ele que na vida real de carne e osso não exercia domínio nenhum nem sobre si mesmo não se dava conta que as pessoas o escutavam realmente, isso porque nem ele se escutava. Mesmo sendo uma figura comportada com atitudes e gestos precisos, tinha dentro dele um anãozinho louco desses que pulam para alcançar o gancho do orelhão, que nunca concretizam nada mas estão sempre ali saltitantes feito Mario Bross.
Um dia, sofrendo da náusea que o incomodava desde que nascera e que agora por conta de um coração partido, um amor mal resolvido e para sempre um vazio resolveu deixar seu Mario Bross agir. E, naquele sábado a noite tocou apenas músicas melancólicas.
Era uma coleção imensa e infindável que destilavam o mais puro sofrimento humano por conta do amor. Ao passar de cada canção inevitavelmente pensava sempre nela, ela que o escutava que sempre o escutava aos sábados, que sempre pedia para que ele tocasse aquela canção sobre pássaros, ela cujo o nome perdera-se "no meio de tanta noite e tanto dia", ela que talvez não o reconhecesse mais na rua depois de tanto tempo longe, de tampo tempo passado e de tantas mudanças ocorridas dentro de cada um. E essas coisas de mudanças são tão bonitas de serem ditas é algo tão progressista que demonstra o desenvolvimento do ser humano, o amadurecimento da pessoa para uma vida adulta, para uma vida de compromissos e regras e contas a serem pagas que as pessoas gostam mesmo de dizer quando se reencontram que estão diferentes que muitas coisas dentro delas mudou. Quando na verdade sentem aquele gostinho de saudade de uma vida boa que já passou.
E entre ele e ela, havia aquela distância imensa, exata e necessária como deveria ser. Como quase sempre acontece podiam ter se esquecido junto com o amor que já haviam esquecido, mas entre eles não dava. Embora diferentes eram as mesmas reclamações, as mesmas faltas e a mesma decepção com a tal vida. Talvez tenham aprendido a fazer aquilo juntos e depois tantas músicas tristes acreditou sinceramente que era aquilo que o mantinha preso a ela.
E naquele sábado dentro de tanta melancolia, sem atender nenhum pedido de música esperando apenas um pedido que não veio. Fez com que a noite de sábado da cidade inteira fosse triste. Venceu.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

sobre o nó na garganta

Sentiu um cheiro ruim, sabia que talvez viesse do homem ao lado mas nunca teria certeza disso. Quando o ônibus fez a curva viu ao longe a fila de carros, o nó na garganta apertou e com os olhos secos sentiu vontade de chorar.
Há tempos sentia aquele nó na garganta, as causas eram diferentes mas a vontade de vomitar nas pessoas era a mesma. Lembrava bem a primeira vez em que sentiu o nó.
Por telefone, quase implorando alguma justificativa para algo que não havia qualquer explicação sentiu pela primeira vez vontade de falar sem parar palavras quaisquer para que assim talvez algumas delas fizessem sentido. Não falou, engoliu seco e por muito tempo sentiu vontade de falar coisas desconexas, jogar, cuspir e quem sabe assim exorcizar fantasmas. Só que Vontade como já dizia o bordão é coisa que dá e que passa.
Passou, ficou o nó que selou um saco vazio.
Agora sempre que sentia esse nó as palavras não saíam, perdia a voz. E mesmo que tentasse gritar era como tentar sentir qualquer odor na cidade ou em um saco de lixo. Mas o nó estava sempre ali, triunfante reinando sozinho em sua garganta.
Agora com o ônibus chacoalhando, com a cabeça baixa e o nariz seco. O estômago revirava, não sabia se a vontade de vomitar era por causa do cheiro do homem, da comida estragada ou do vazio que sentia.