domingo, 16 de setembro de 2007

Sábado no carro

Apesar de tanta tecnologia de tantas formas de divertimento, de tantos jeitos diferentes de passar o tempo, ali naquela cidade todo sábado a noite seu programa de rádio era escutado pela maioria da população. Ninguém entendia ao certo qual o domínio que aquela voz exercia sobre as pessoas do local, mas que todos paravam e lhe escutavam aos sábados isso era fato. As músicas aos sábados a noite eram sempre alegres, animadoras e encorajadoras para uma possível festa, uma possível alegria besta e inventada.
Ele que na vida real de carne e osso não exercia domínio nenhum nem sobre si mesmo não se dava conta que as pessoas o escutavam realmente, isso porque nem ele se escutava. Mesmo sendo uma figura comportada com atitudes e gestos precisos, tinha dentro dele um anãozinho louco desses que pulam para alcançar o gancho do orelhão, que nunca concretizam nada mas estão sempre ali saltitantes feito Mario Bross.
Um dia, sofrendo da náusea que o incomodava desde que nascera e que agora por conta de um coração partido, um amor mal resolvido e para sempre um vazio resolveu deixar seu Mario Bross agir. E, naquele sábado a noite tocou apenas músicas melancólicas.
Era uma coleção imensa e infindável que destilavam o mais puro sofrimento humano por conta do amor. Ao passar de cada canção inevitavelmente pensava sempre nela, ela que o escutava que sempre o escutava aos sábados, que sempre pedia para que ele tocasse aquela canção sobre pássaros, ela cujo o nome perdera-se "no meio de tanta noite e tanto dia", ela que talvez não o reconhecesse mais na rua depois de tanto tempo longe, de tampo tempo passado e de tantas mudanças ocorridas dentro de cada um. E essas coisas de mudanças são tão bonitas de serem ditas é algo tão progressista que demonstra o desenvolvimento do ser humano, o amadurecimento da pessoa para uma vida adulta, para uma vida de compromissos e regras e contas a serem pagas que as pessoas gostam mesmo de dizer quando se reencontram que estão diferentes que muitas coisas dentro delas mudou. Quando na verdade sentem aquele gostinho de saudade de uma vida boa que já passou.
E entre ele e ela, havia aquela distância imensa, exata e necessária como deveria ser. Como quase sempre acontece podiam ter se esquecido junto com o amor que já haviam esquecido, mas entre eles não dava. Embora diferentes eram as mesmas reclamações, as mesmas faltas e a mesma decepção com a tal vida. Talvez tenham aprendido a fazer aquilo juntos e depois tantas músicas tristes acreditou sinceramente que era aquilo que o mantinha preso a ela.
E naquele sábado dentro de tanta melancolia, sem atender nenhum pedido de música esperando apenas um pedido que não veio. Fez com que a noite de sábado da cidade inteira fosse triste. Venceu.

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