domingo, 30 de julho de 2006

Primeira Pessoa

Estou odiando esse blog. Talvez seja pelo lay-out, odeio todos eles e pode ser que como forma de revolta com minha incapacidade de alterá-lo eu coloque um lay-out rosa. Bem Sandy e digo mais, quando eu aprender a mexer nesse inferno direito eu vou colocar uma foto bem grande da hello kitty. E tenho dito!

sábado, 29 de julho de 2006

Qualidade de Vida

Da sacada do edifício de luxo via o tal bairro tombado, lá longe ficava o estádio - verde e creme. Achava engraçada a tal "qualidade de vida" vendida para os compradores de um apartamento, na verdade não só para eles mas para as pessoas de um modo geral. O mundo adulto é cheio de sonhos com viagens internacionais, almoços em bares da moda, livros de receitas de grandes chefs, reuniões entre amigos bem sucedidos. Tudo muito feliz e clean, assim como um jantar japonês.
O mundo era muito irônico, a começar pelos limites de um bairro tombado. Ali, bem na divisa entre o que pode e o que não pode havia um prédio de 18 andares e que dali, da ponta da sacada, dava pra ver as casas do antigo bairro. Aquilo era a chamada "qualidade de vida", olhar para um monte de casa do alto da sacada do seu apartamento. Era também qualidade de vida, ter uma banheira inteligente que funcionava com apenas um toque de celular, comida congelada na geladeira, um celular que era câmera-rádio-computador-massageadordeego. Tudo muito prático para que a vida fosse rápida.
Aquela vida a assustava, talvez por falta de competência. Ou porquê talvez se identificasse com aquele atendente dos correios, sempre com o botão da camisa torto, com as unhas milimétricamente aparadas e com a calma de quem sabe que o dia vai acabar e que amanhã será igual a hoje. Ou também porque gostava mesmo eram daquelas primeiras horas da manhã em que andava sozinha na rua quase deserta sentindo uma solidão alentadora que a libertava. Seu mundo micro era cheio de descobertas reveladoras, um trilho de trem quase escondido sob o asfalto de uma avenida que não existia apenas nos mapas sempre vistos, o atendente do correios que tomava o mesmo ônibus que ela e que fora da agência usava uma camiseta azul e branca, o labrador mais calmo do mundo...

domingo, 23 de julho de 2006

Rússia, China e Índia

No fim era aquilo mesmo, quem seria o primeiro a ir ao banheiro? Esperar que voltasse não era indicado para o orgulho próprio, talvez não voltasse. Ela mesma queria que não voltasse.
Lembrou-se da frase vinda do alto: "...não sei, as vezes me perco. Na Rússia, na China e na Índia pode existir uma pessoa tão especial quanto você. Não vai ser você...". Não lembrava-se do fim da frase, não prestou atenção. Os olhos e as mãos eram mais importantes num homem que vestia aquele seu velho casaco laranja.
Ali, dançando sozinha, olhava para cantora e instaneamente calculava. Sim, fazia um ano que escutou aquela frase e fazia um ano que esperou que ele voltasse do banheiro.

terça-feira, 11 de julho de 2006

Hosana

Era óbvio que em uma igreja na esquina da Rua Hungria com a Áustria, o retrato de Jesus Cristo na parede fosse de um homem loiro que mais lembrava um ator de cinema do que Cristo mesmo. "- Hosana nas Alturas", fazia tempo que não escutava aquela frase, não lembrava-se da resposta. Mas sabia que lá no alto ainda existiam os santos solitários, com perucas feitas com cabelo de pessoas pagando promessas e que de perto, lá na casinha onde eles ficavam, eles eram grandes, tão grandes quanto uma criança de 6 anos. A pomba pintada na viga da igreja e que tinha de fundo um recorte de céu assimétrico, devia estar por lá também. Uma pomba grande e branca que ficava perto do céu, o mesmo onde São Pedro lavava a casa e que o barulho que dava lá era de algum móvel caindo. No meio de tanto céu, de tanto santo, tantas cadeiras de madeira entalhadas com feras discretas e com pés-de-pata era difícil lembrar da resposta de "Hosana nas Alturas".
A ave-maria ela sempre soube, toda noite três vezes antes de dormir repetia baixinho para o travesseiro. Porém antes era necessário pedir desculpas para Maria, pois na noite anterior ela dormira no meio da segunda.

sábado, 8 de julho de 2006

A segunda me chegou...

Gostava de casas amarelas, velhas, aparentemente abandonadas e com uma luz fraca eternamente acesa.Sempre que passava por ela a noite, sentia que a vida era mais do que casar-terfilhos-envelhecer-ternetos-casadepraia-seioscaídos-morrer. Naqueles poucos segundos em frente àquela mesma casa, conseguia lembrar-se de todos os rostos que junto com ela observavam o enorme buraco no chão e que a cada dia transformava-se em algo diferente, quantificava as casas construídas na rua com nome de doce e que por alguma força obscura algum dia seriam dela, experimentava de novo a sensação de finalmente entender o significado da expressão "me invadirias subitosuave" assim como no dia em que conseguiu atravessar a rua correndo enquanto o sinal de pedestres piscava urgente. Depois que passava por ela, tudo voltava ao normal e a vida tornava-se um dia atrás do outro com alguns solavancos no meio. No fundo sempre havia a esperança do dia seguinte, aquela casa ali a noite sozinha e sem ninguém dentro. Pelo menos aquela era protegida por lei, pelos menos ela poderia garantir a si própria que por algum tempo a sua segunda casa amarela não cederia espaço para famílias irritantemente felizes empilhadas em caixotes.
Pelo menos até descer do ônibus o mundo estava a salvo e as coisas nos seus lugares de sempre.