sexta-feira, 30 de maio de 2008

preso nos lábios.

Era muito difícil escrever qualquer coisa sobre gostar, quando na verdade o que se queria mesmo era exercer o gostar de perto. Decorar o jeito que ele tinha de pegar no copo e como seus olhos brilhavam na luz de final de tarde ou como quanto seu olhos se arregalavam com algum susto bobo ou o tom de sua risada.
Certamente não saberia começar ou terminar qualquer história, sendo que o que realmente tinha vivo em sua mente era um olhar moreno que gostaria de identificar na multidão apressada que a carregava sonâmbula por entre ruas cinzas, poças d'água e um sorriso preso nos lábios esperando um próximo...
E na próxima esquina, no próximo quarteirão aquela mão que passava sem querer por seu ombro, quase tinha o mesmo peso que gostaria que tivesse e seus sorriso quase se libertava, mas sabia que não. O sorriso preso nos lábios teria que esperar um próximo...
Por entre bancas de feira, tomates, cenouras, alface e barracas de pastel escutava ao longe o que poderia ser o tom de voz que gostaria de escutar e mais uma vez quase que o sorriso escapava sorrateiro de seus lábios, mas teria que esperar um próximo...

domingo, 18 de maio de 2008

Babãe sou arquiteta... VIII


é para prestar atenção na parede.




Em mais uma postagem da "baravilhôsa" série "Babãe sou arquiteta e estou resfriada.... VIII" tratarei de dois assuntos: sobre como é bom não contratarem um arquiteto em certos momentos, óbvio. E sobre como eu odeio algumas propagandas publicitárias e a crescente especulação imobiliária que meu bairro está sofrendo (tá eu sei que isso é natural, é a dinâmica da cidade, mas me deixem ser feliz, pelo menos aqui!).

1- Na última semana estive no Valadares um boteco excelente que fica localizado aqui na Lapa, ele é pé sujo mas serve sempre porções gordurosas e deliciosas e chama-se Valadares pois o dono é mineiro de Governador Valadares (a-há!). Além disso tal bar é patrimônio da família, foi lá que "comemorei" minha passagem no vestibular (a parte vida pessoa termina aqui) etc e tals. E fiquei sabendo através da minha mãe que o bar tinha sofrido uma reforma, e que na opinião dela, uma mineira, era obra de mineiro, bem mal acabada. Na hora em que isso foi dito não entendi muito a crítica, mas depois que fui lá percebi que na verdade não era uma reforma no sentido puro da palavra, foi só uma ampliação sem muitas pretensões de acabamento caprichado e projeto descolado. O que na verdade na minha singela opinião, salvou o lugar. Antes que todos os meus colegas me matem, é óbvio que é muito legal ir em um lugar em que exista projeto e que a gente veja o projeto funcionando, mesmo que não seja do jeito que o arquiteto planejou (coisa que na minha inexperiente visão, não existe muito). Mas no caso do Valadares se contratassem um arquiteto para fazer a ampliação certamente o ar "pé sujo" do lugar seria transformado em um ar cool com balcão de madeira escura e fotos antigas de Governador Valadares. Ao mesmo tempo penso que estou sendo muito pessimista e que seria algo muito interessante um projeto que não tirasse as características do lugar.

2- A foto do guardanapo não é uma cantada, mas uma propaganda de mais um novo empreendimento imobiliário no Alto da Lapa, me irrita bastante essa invasão publicitária. Hoje em dia não é mais possível comer um bolinho de bacalhau que logo tem alguém querendo te empurrar algo goela abaixo.

Burro na cabeça!

Não sabia muito bem a frase mas lembrava-se apenas da necessidade do risco na vida do homem. E ela que vinha tão bem, evitava o risco com primor e sabia que o descuido do sim era causa do seu medo. Desse modo fazia uso do jogo do contrário, pensar que tudo dará errado para que tudo dê certo, cercava a vida e todas as possibilidade de erro, mas como nunca foi boa em matemática havia sempre aquela possibilidade não considerada e catapimba! Se jogasse no bicho certamente era burro na cabeça.
De antemão previa o nó no peito que imediatamente subiria para a garganta e dá-lhe Clarice Lispector, Fernando Pessoa, William Faulkner e o sentimento de que todo o sofrimento do mundo estava ali em suas costas. Uma visão melodramática da vida, do sofrimento e da dor mas se tudo não terminasse em pastelão de que adiantaria o choro contido e o nó no peito?

segunda-feira, 12 de maio de 2008

por não saber

Sabia pouco sobre ela, sabia que não gostava de tirar fotos, que não se casou, que não teve filhos e que tinha joanete grandes e doídas. Nunca sentaram na mesma mesa de almoço, pois ela sempre comia depois de todos e diziam que ela fora acostumada a isso pelo pai, que não suportava o fato dela sempre o contrariar.
Sabia também que ela teve um namorado e que se vestia muito bem quando jovem e que foi a Petrópolis algumas vezes e imaginava que ela gostava de palácios e de praças cheias de topiarias, mas nunca perguntou isso para ela então era mais uma história, uma opinião e um causo que ninguém mais saberia.
Nunca soube se ela gostava de amarelo ou vermelho, se preferia cheiro de jasmim a rosas ou se era devota de Santa Rita ou de Santa Clara, se ela gostava de ler, se gostava de música e se achava o William Bonner bonito. Sempre teve medo que todas as velas que acendia para a infinidade de santos que moravam em seu quarto, um dia poderiam tocar fogo na casa e que do espelho gigante grudado no armário pudessem sair todos os monstros habitáveis na cabeça de uma criança e nas lembranças dos tempos de criança.
Agora tinha certeza que o final da história da Família Corujinha estava perdido para sempre, restava apenas a lembrança do som cremoso das pedras do colar que insistiam sempre em se encontrar, a lembrança do cafuné em seu cabelo de criança e o gosto doce de pudim de pão, doce de jaca e uva caramelada.

sábado, 10 de maio de 2008

como faz?

E se soltasse a presilha do cabelo mais lentamente, seria possível ser feliz ate o fim? Se desamarrasse o cadarço do pé direito antes do pé esquerdo, seria possível ser feliz até o fim? E se ao invés de esquentar a água por 1min20seg esquentasse por 1min37seg seria possível ser feliz até o fim?

E ser feliz até o fim será que era como? Talvez fosse como um braço em volta da sua cintura, te protegendo dos solavancos que o mundo e o ônibus davam ou quem sabe até o olhar calado e castanho de quem pergunta sobre a classificação da camisa que usa. Poderia ser também um monte de palmeiras imperiais enfileiradas dentro da tarde agridoce ou apenas uma pulseira de néon guardada em um saco de lembranças.