segunda-feira, 26 de novembro de 2007

mamãe sou arquiteta, mas...



Hoje eu inauguro mais uma série "mamãe sou arquiteta, mas não gosto só de arquitetura I". Descobri essas "diretoras de arte" através de uma amiga (L) que também conheceu através de uma amiga (N) que também é minha amiga. Mas a amiga L só foi apresentada a esse projeto pois tem mania de remédios e a amiga N, que é uma pessoa muito prestativa , apresentou uma saída para tal cacoete, por assim dizer, desnecessário da amiga L. E eu gostei porquê é colorido, é doce, tem uma resposta de projeto arquitetônico e publicitário que me pareceu interessante e principalmente porque as indicações de uso tem uma beleza ímpar (pelo menos eu, gosto dessa "poesia" banal).

A outra imagem também me chamou atenção pelo fato de que mesmo não entendendo muito de futebol e nem sendo uma torcedora fiel (que assiste aos jogos, sabe o nome dos jogadores etc) eu acho bonito a paixão que as pessoas tem pelo esporte, do mesmo jeito que admiro pessoas que choram na quarta-feira de cinzas porque sua escola de samba do coração perdeu, ou aquelas que tem uma verdadeira paixão por alguma coisa (que não uma pessoa) e dedicam-se a essa paixão quase que diariamente.
Ah povão, o site é: http://www.m-m.es

domingo, 25 de novembro de 2007

Segredo

Ele é o único que sabe que pelas manhãs você carrega dentro de si um velho ranziza, tuberculoso e de voz rouca, sabe que você insiste em carregar dentro da bolsa um guarda-chuva quebrado do mesmo jeito que sempre esquece a chave de casa e acaba dormindo encolhida no hall do elevador.
Ele é testemunha daquele beijo e do até logo sem graça, dos seus passos incertos e cambaleantes que culminam num "boa noite" embreagado. Testemunha do medo que você tem até da própria sombra e que por conta desse medo anda rápido e leva sustos com a terceira sombra que está sempre atrás de você naquela esquina de parede de pedra, de janelas altas e de um cachorro que chora ao longe. Testemunha de uma serenata cantada ao pé do ouvido e da única rosa vermelha que já ganhou.
É um anjo que mesmo sonolento abre com rapidez o portão da sua casa e te diz o boa noite mais sincero em uma noite não tão boa assim.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

almoço solitário

Mal-humorada mastigava com força o bife empanado, quando engolia era como se estivesse engolindo brita, sabia de cór e salteado o significado de uma comida que "desce quadrado". Não olhava muito para o que comia e nem para o que estava ao lado. De repente ao som de um trovão, sem guarda-chuva pensou no quanto odiava São Pedro, virou-se para o lado e para o seu espanto viu a personificação do próprio santo. Nunca imaginou que ele fosse tão bonito e jovem. Sempre pensou em um São Pedro barbudo, grisalho e um pouco gordo.
Não imaginou também que ele almoçava no mesmo restaurante que ela e que tinha os olhos mais azuis que já vira. Talvez aquele São Pedro estivesse mais para um dândi grego do que para uma caricatura de frade.
Mas e depois da visão o que faria com aquilo? Poderia esbarrar nele sem querer e arrumar um meio de travar um diálogo, mas o que falar com um santo que cuida do tempo, além do tempo? Falar sobre a sua falta de guarda-chuva, sobre os inconvenientes da chuva para o trânsito, para a cidade, para o universo e para qualquer outra coisa que eram irrelevantes naquele momento.
Mas no fundo sabia que a idéia de esbarrar em São Pedro não era muito boa, pois não levava jeito para esbarrões. Preferiu pedir ajuda à Santa Rita, aquela das causas impossíveis ou essa seria Santa Edwiges? Desistiu da ajuda de santos e santas, lembrou que poderia ser amaldiçoada para recorrer a eles pedindo ajuda para fins ilícitos.
Seu tempo de almoço estava se acabando, nenhuma das duas santas a ajudavam e a chuva antes salvadora resolveu parar. Não poderia ficar ali parada na porta esperando nada, pois não queria chamar atenção de São Pedro pela moral oposta, parecendo uma louca divagante sua única saída seria abrir mão do seu eterno e grande amor por um santo e voltar ao trabalho. O que a consolava é que no trabalho poderia voltar a pensar no homem-sem-rosto-com-a-letra-mais-bonita-do-mundo.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

quem me navega é o mar


A água batia na pedra ora com muita força, ora só com força. A força dependia do vento, mas o bater não dependia de nada, com muito ou pouco vento a água sempre batia na pedra. Era bom ver que as coisas aconteciam sem que fosse necessário mover qualquer músculo do corpo. O vento batia leve nos lábios, secava sua boca, olhava para o sol até não conseguir enxergar mais nada, fechava com força os olhos e quando os reabria só enxergava o mar. O som da água batendo nas pedras mais parecia uma trovoada do que apenas a água que bate nas pedras. Pensou com gosto que as coisas não precisavam dela para acontecer.

Prendeu o cabelo e olhou de novo para o mar, não viu mais o mar. Viu o homem estendido no chão com uma perna presa ao corpo mas completamente deslocada dele. Escutou os gritos desesperados de um homem, que gritava em italiano algo que tinha algum deus, algum filho e muitas lágrimas no meio. Viu de novo os olhos de homem de punhos cerrados que correndo largou alguma coisa perto do pai e correndo sumiu pela rua. Escutou novamente alguém que dizendo, "eu vou lá ajudar" e logo depois alguém em cima dizia "devolve, ele acabou de perder um ente querido". De novo via um homem se aproximar do corpo, olhar e voltar vomitando. De novo olhou para baixo do ônibus e viu uma bicicleta com um pedaço de carne, de qualquer carne, de qualquer parte de algum corpo e sentiu a dor em sua própria face. Apertou os olhos, esfregou com as mãos para apagar o que não dependia dela. Os olhos cheios d'água, mas de uma água que não era choro, era só o vento que batia forte e tentava secar a vista. Não conseguiu chorar, não conseguiu vomitar, não conseguia falar nada. Dentro de si tinha apenas aquela sensação de que as coisas acontecem sem que seja necessário mexer um músculo do corpo, como um grito preso na garganta.

O som da água batendo na pedra era sufocado por um grito que ecoava ao longe que não era seu e que agora, para sempre estava preso dentro de si. Para mais tarde, quando tudo não passassse apenas de uma lembrança dura de carregar, que ela soubesse que as coisas não precisam dela, para que sejam coisas, para que seja um choro, para que seja uma dor.