sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Só uma observação.

Festa Da Vinda - Cartola/Nuno Veloso

Eu e meu violão
Vamos rogando em vão
O seu regresso
Se soubesses como choro
E como peço
Para que nosso fracasso
Se transforme em progresso
Apesar de todo erro
Espero ainda
Que a festa do adeus
Seja a festa da vinda
Já perdi tantos amores
Não notei diferença
Pensei que passava um século
Sem a sua presença
Misturada entre as pedras preciosas do mundo
Com um simples olhar
A você não confundo.
Enquanto ia para o trabalho essa música tocou repetidamente durante quase todo o trajeto, talvez pelo som da caixinha de fósforo no começo, talvez pelo modo como o Cartola fala "não notei 'diferenza'(...) sem a tua 'prezença' ", talvez pelo som anasalado da voz dele mas certamente pela impressão de que o tempo para enquanto a música toca.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Sonho de Valsa

As três aves-marias diárias foram substituídas pela seguinte prece: "Capa de acetato transparente, contra capa e aspiral pretos. Acrescentar capas e plásticos enviados, acertar tudo em tam. A4. Obrigada.", antes de terminar a terceira prece, já estava sonhando. Em seus sonhos sempre havia um mendigo que lhe dizia: "Moça, dá 10 centavos pra eu pegar o metrô pra casa... pra casa do carrrrrralho", emendando com o 'rrrrralho' uma voz masculina ressoava ao fundo: "depois de 30 anos de casado o sujeito não quer mais dividir o banheiro com a mulher, mas os casais novos não ligam para isso..." e mesmo no sonho aquilo lhe parecia bizarro.
Mais adiante surgia aquela luz da FLORICULTURA SANTO ANTONINHO, com o próprio SANTO ANTONINHO atrás do balcão vendendo flores. Ele era irmão da SANTA RITINHA, proprietária e vendedora da FLORICULTURA SANTA RITINHA, que não era vizinha à do irmão mas era igual. As diferenças eram: a localização e as cores do letreiro em néon, pendurados por um fio fininho. As flores eram todas de plástico, sem cheiro algum e empoeiradas, na parede dos fundos o revestimento era de ripas de madeiras brancas. "Branco como o leite, branco como o dente é, brancão" e assim com essa deixa surgia um rato azul de massinha, aquelas massinhas que deixavam um cheiro e tato esquisito nas mãos, esfregava as mãos com o toda força que tinha, lavava sem parar pronta para entrar na sala de cirurgia e operar ninguém mais ninguém menos que a Madre Clélia!
Sim, a mesma menina rica que na infância teve uma visão e lutou contra tudo e todos para ser freira e assim tornar o mundo justo. Não conseguiu, pois se o mundo fosse justo não teria que pedir todas as noites para que no dia seguinte, problemas que não lhe pertenciam se resolvessem sozinhos sem que movesse o dedo mindinho. Perdia a esperança na própria esperança e aquele desejo que tinha gosto de mousse de chocolate com chantilly em cima, na vida de olhos aberto tinha gosto de adoçante.
E quando estava estalando a língua por causa do gosto ruim, uma música havaiana surgia ao fundo "flowers and bees" e assim, todos os dias era acordada pelo ursinho Pooh.

domingo, 14 de outubro de 2007

Loser que é loser...

Certa vez lhe perguntaram: "E se você encontrasse com o Chico Buarque na rua, o que faria?", respondeu rindo "Antes de desmaiar eu diria que a Marieta não sabe o que perdeu!". Certamente não desmaiaria e nem falaria nada para ele, abaixaria a cabeça como uma simples e encabulada mortal e mudaria o rumo dos passos para não ser vista por ele.
Ok, muito bem. Era assim que reagiria na frente do Chico Buarque mas e na frente do Rodrigo Santoro? Nunca planejou nenhuma rota de fuga para aquela situação, sempre que pensava nele lembrava da cena de um filme em que ele e a namorada caminhavam pelo centro de SP a noite só com aquelas luzes amarelas como testemunhas. Ficava tão maravilhada com a cena e sorria de canto e apertava os olhinhos e esquecia por completo de criar qualquer plano para o dia vindouro.
Até que no dia em que vestia a pior blusa, com a pior calça, com a pior sandália tudo isso encabeçado por um cabelo de mal-humor deu de cara, literalmente, com ele. Em exatos 30 segundos, pensou:
1°- que sorte dar de cara com o homem mais bonito do mundo;
2° - bingo! Ele tem os braços do Rodrigo Santoro;
3° - sorte nada, ele é muito bonito deve dar trabalho;
4° - se bem que os feios também estão dando trabalho;
5° - se bem que qualquer relaçãozinha sequer anda dando trabalho;
6° - nossa, mas o rosto é igualzinho ao do Rodrigo Santoro;
7° - como sou burra e hipermétrope É o Rodrigo Santoro;
8°- ele deveria estar mais longe, assim saberia logo quem é;
9° - nenhum homem é perfeito viu!;
10° - acho que devo parar franzir a testa e fazer cara de desgosto e desaprovação.
No segundo 31, sorriu, pediu desculpas, ajeitou a blusa o cabelo e a bolsa, fingiu que não sabia quem era ele e continuou andando pela rua meio tonta, meio torta, meio boba.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

me perdoe a pressa...

Eu também só ando a cem. E foi assim, com esse verso tocando que viu o homem vermelho ficar verde. Passou por ele e não percebeu. Minutos depois uma mensagem no celular, "Quando é que você telefona?", sorriu e deu prosseguimento respondendo "Precisamos nos ver por aí".
Parou, pensou em responder mas desistiu. Deu dois passos para trás, três para frente. Deu dois cliques na mensagem, telefone fora de área.
Retomou um breve diálogo:
- Eu gosto dessa música, sempre penso que são duas pessoas atravessando a rua e se falando rápido.
- Eu também gosto, mas para mim são duas pessoas que se encontram no farol.
- Imagine, como você é tonto!
- Então qual o motivo dos versos "O sinal...eu procuro você...Vai abrir..."?
- Pode ser. Mas ainda acho que são duas pessoas atravessando a rua.
- Isso porque você não dirige.
- Apelão.
- Criança.

passei a noite procurando tu, procurando tu, procurando tu...

Li apenas a primeira parte e a autora descreve uma casa, tema para um próximo post "mamãe blábláblá...". Mas o que eu quero dizer é que ela simplesmente escreveu sobre coisas que eu acredito como arquiteta e como pessoa. E por uma fração de segundos eu me senti realizada por ver que eu não sou a única que se revolta com uma casa tombada, ou que acredita e se interessa pelo valor histórico-sentimental que certos lugares tem para as pessoas e como isso está inserido na cidade.
Fiquei com vontade de ir falar com ela, caçar o e-mail no Google, mandar uma carta ou coisa do gênero. Mas depois caí na real e pensei o que eu escreveria para ela? Mostraria meu tfg e falaria o que depois? Me leva para trabalhar com você, eu sou ótima para ver o mundo? Adoro lugares decadentes, bocas do lixo e gosto justamente porque eles são assim. Sendo assim, não me peça para fazer uma oficina cultural onde antes era um cortiço. E aí, qual a verdadeira função de tudo isso que eu penso e escrevo e imagino?