segunda-feira, 30 de outubro de 2006

Botões

E como se nunca estivesse ali, de repente reconheceu a cor. E sem mais nem menos tudo fez sentido. Uma rua parecia com a outra, mesmo em cidades tão distantes, justamente pela cor. Um marrom cheio de sombras causadas pela pedra irregular e foi necessário uma tarde de horário de verão para que soubesse finalmente porquê gostava daquela lá, agora tão distante.
A vida era feita de pequenos mistérios que a cada dia se resolviam com um olhar de relance, se olhasse muito algo não enxergava nada. Mas olhando sempre distraidamente, descobria-se algo. Claro que nesse jogo não adiantava fingir nem roubar de si mesma, embora tal prática fosse constante. Afinal de contas, qual seria a graça do mundo criado se nós não fossemos completamente felizes nele?!
Dentro dele, cartas guardadas em pacotinhos de plástico no fundo de uma antiga caixa era a despersonificação de alguém, de algum passado. Enquanto as lia era como se tivesse diante dela, um balde com água cheio de botões e era delicioso colocar o braço dentro dele e ficar lá rodando, podia fazer isso por horas infindas. Sentindo a água entre os dedos, fazendo rodamoinhos de botões no silêncio absoluto que uma tarde de sol lhe permitia.

terça-feira, 17 de outubro de 2006

Belga

Após muito tempo descobrira que o quê gostava mesmo, era poder saber sobre tudo ao mesmo tempo. Era fascinante saber que se não estivesse ali, naquele exato instante, nunca saberia que a menina de olhos grandes dormia sentada na mochila e pouco se incomodava com o balanço do trem, também não saberia que o homem típico de tal lugar, tinha entradas na testa e suéter de lista.
Dentro de todas aquela casa tão antigas, altas, cheias de adornos, nas quais dentro era sempre outono ou primavera regados ao barulho de barco dos tacos velhos de madeira, morava um velho belga com colete de fotógrafo, cuja solidão não era plena, pois afinal de contas havia os bolsos do colete. De cada um deles surgia um mundo feito apenas de detalhes, recortes de pessoas, lugares, gestos perdidos, gestos contidos. Todos contavam alguma história banal que deveriam ser registradas a todo custo. E era dever dele, um velho belga, registrar metódicamente o que sempre escorria pelas mãos. Mas ali havia sempre algo inexplicável, algum sentimento que todos do lugar entendiam e carregavam consigo, mas que ele não conseguia enxergar. A garota que dormia na mochila, podia estar em qualquer lugar, em qualquer momento e ele quase chegava a acreditar que realmente existiam meninas idênticas a ela na Bélgica, no Japão e na Austrália. Mas cada uma delas carregava em seus gestos de menina um segredo, algo indecifrável para ele, que mesmo sem enxergar omesmo que elas, sabia que existia.