quarta-feira, 17 de maio de 2006

Boa Sorte

A velha ao lado perguntou as horas, depois se o ônbus passava por lá, depois comentou sobre o frio, sobre o laço de fita vermelho, sobre a quantidade de pessoas na rua. Finalmente ela parou de responder sim e não e compreendeu que aquela era uma senhora que ajudava aos outros e nunca reclamava de nada, entrou correndo no ônibus. A velha que falava sem precisar de ouvintes olhou em seus olhos e desejou boa sorte.
Talvez fosse sorte do que precisava, não sabia mais se era a velha ou se era ela mesma. Se ela mesma que deveria continuar seguindo para quase sempre o mesmo lugar. Se fosse assim, não precisaria de sorte, não precisaria olhar para os lados. Talvez pudesse mesmo não sentir mais nada ou então sentir tudo de uma vez só de verdade, sem dosagens homeopáticas. Mas havia sempre aquele desejo de ficar eternamente quieta no sol e havia sempre o boa sorte da senhora caridosa.

sábado, 6 de maio de 2006

Safira

- Hoje é a primeira vez que com 10 anos eu corto o meu cabelo! Por isso, capriche hein!
- Nossa, que bacana. Daqui a 10 anos eu lembrarei disso.
- Agora com 10 anos, eu posso também andar no banco da frente do carro.
- Nossa Jade, você já é uma moça!
- Meu nome não é Jade, é Safira.

terça-feira, 2 de maio de 2006

Coração na garganta

E se de repente a menina fechasse a boca? E se o pai dela, arrumasse um emprego? E se a velha, amiga da família, encontrasse um amor? E se as amigas dos motoristas, finalmente casassem com todos eles? E se a mulher com cara de rato-coitado, sorrisse de verdade? E se a vendedora da Yakult, fizesse uma plástica no nariz?
De quem sentiria raiva de manhã? Qual seria o motivo do iogurte, tomado às pressas, revirar no êstomago? O quê despertaria nela aquela vontade de vomitar, o coração na garganta, a testa franzida?
Naquela hora do dia não havia música, apenas três placas de concreto pintadas de vermelho, que serviam de abrigo. Apenas anúncios no chão e na parede de crédito fácil, trabalho duro, shows armados para conter uma guerra civil.
Lembrava-se da frase "naquela hora do dia em que nada precisava dela". Em qual hora do dia, algo precisava dela?