quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

enquanto seu lobo não vem...

Enquanto seu lobo não vem, penso no show de quinta-feira e acredito piamente na picaretagem dos músicos. Me acho meio tonta, ou meio chata, pois a maioria aplaude, adora e acha bonito o solo de sax. Músicas velhas, comemoração de 50 anos de movimento artístico, todo mundo cantando junto quase todas as músicas de sempre, algum achado aqui e ali alguma música muito boa, desconhecida de tal compositor muito bom. Mas que mesmo sendo executada, mesmo sendo uma boa escolha, a "versão" destrói com qualquer possível elogio.

Enquanto seu lobo não vem, penso no show de sexta-feira e acredito piamente no talento da cantora, na voz, na boa escolha dos músicos, na boa escolha das músicas e dos compositores. Mas o show poderia ter sido melhor se o nível alcoólico da cantora estivesse um pouco mais baixo. Me acho meio tonta, ou meio chata, pois a maioria aplaude e da risada quando ela mesmo lendo erra a letra e volta a cantar na estrofe errada. Um talento desperdiçado e como já dizia a velha sábias árabe: "trabalho é trabalho"

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

teleco-teco

Enfiou a cabeça dentro do braço dele e não saiu dali enquanto o homem fantasiado de vermelho não se afastou. Não tinha medo de "bate-bola", nem de pierrot e nem dos presidiários. Mas tremia todas as vezes em que algum chifre se aproximar, sabia que ele vinha pegá-la por não ter dobrado a camiseta que a mãe pediu.
Gostava do gosto de confete, quando era o garoto moreno de cabelos lisos e fantasiado de índio que jogava violentamente em seu rosto. E para desespero do menino, não retrucava, não sorria e não o xingava. Dava de ombros, cínica, serena e triunfante.
O peito enchia-se de ar e quase engasgava com a felicidade. Porém ao avistar ao longe o homem alto vestido de vermelho e rabo em forma de flecha e que sorria para ela. Corria, corria e corria pelo salão, trombava com melindrosas, caía em cima de baianas, marinheiros, ciganos e de forma alguma conseguia encontrar a única pessoa capaz de salvá-la.
Cansada e derrotada, ouvia aflita a marcação contente da caixa e se não fosse pelo terror constante causado pelo homem de vermelho e bigode preto bem aparado, se deixaria levar por aquela alegria toda, pela sensação breve de que todos ali estavam sentindo a mesma coisa. Mas era preciso ter cautela, pois a cada momento lembrava-se de uma saia jogada no chão, de uma meia escondida de baixo do colchão e do óculos quebrado. Com fome e com o calor, esperava ansiosa o baile terminar. O pequeno índio, jogou novamente confete nela e surpreso recebeu um sorriso, sentou ao seu lado e ofereceu guaraná, depois churrasquinho e por fim jogou de novo confete em seu rosto. Ele saiu correndo, ela levantou, ajustou a saia de rumbeira juntou no chão todo o confete e serpentina que conseguiu e corria desenfreada pelo salão, seguia-o pela linha certeira que a serpentina presa em suas costas desenhava pelo salão. No meio de toda a alegria quente, do suor moreno, do confete, ráfia e purpurina que se espalhava pelo ar, ela o adivinhava no salão.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

não sei mesmo.

Te monto na minha memória
Como quem forma figuras em um caleidoscópio.
Te faço amarelo, azul, verde, branco, roxo e vermelho
Mas em meu caleidoscópio sempre falta uma pedra de cor indecifrável

Ao longe escuto teus passos e sinto o teu suor em mim,
Não me incomodo com o teu suor e nem com teu provável cheiro.
Perto, bem perto escuto o som cortante da sirene.
E agora em meu caleidoscópio arbitrário tudo fica cinza e marrom.

domingo, 6 de janeiro de 2008

Férias

Tem gente que tira férias no trabalho, na escola, na faculdade, no curso de inglês. Outros tiram férias da família, dos amigos, do namorado e do papagaio. Tem até quem tire férias de si mesmo, da vida que leva e há talvez, quem saiba, gente que tire férias eternas da vida que gostaria de ter.
Daquela vida que é com a tonalidade da cor do sol no fim da tarde, daquela mesma luz que bate no rosto e faz com que a gente aperte os olhos, coloque a mão na frente e continue olhando em direção ao sol sem pretensão alguma de dar as costas.
Da vida que pulsa no ritmo da música cantarolada ao pé do ouvido, que enche o peito de alguma coisa que se parece com a doçura do damasco. Da vida que a gente quer agarrar com as duas mãos e carregar dentro da bolsa, junto com a necessáire de pasta e escova de dente, fio dental e brilho tutti-frutti. Sabe-se lá quanta vida existe no começo da noite, quando na volta pra casa é possível travar qualquer discussão sem fundamento, sobre estilos artísticos e o número de celular jogado fora.
Talvez seja necessário dizer que a vida não é só férias e que não é só feita de pôr-do-sol e damasco, mas deixo essa parte para quem tirou férias eternas da vida que gostaria de ter.