terça-feira, 29 de agosto de 2006

Era tanta confusão no meio do caminho que deixava de ser, ali mesmo naquela praça onde sempre havia o pôr do sol o dia todo. Parada ali, contentava-se em ver as formigas andando uma atrás da outra em um desenho quase organizado, não fosse por algumas retardatárias no meio do caminho. Tecer comparações entre formigas e pessoas e relações era muito chato e pedante. Formigas eram formigas, pessoas pessoas e pronto, simples como uma fileira de formigas indo para o formigueiro.
Não havia nada ali, além de formigas e a cidade lá embaixo. Uma vista de linearidade confusa, uma casa parecia sempre em cima da outra, mas o desenho crescia horizontalmente do mesmo jeito. Uma nota de dez reais caiu em seu pé, não ventava nem nada. Procurou não pensar em como a nota havia aparecido ali, preferia não mexer em coisas tão longes do que podia entender.
No ônibus apertado, sentou no fundo ao lado de uma mulher bem gorda de blusa de lã. Protegue-se nela até o ponto final.

domingo, 27 de agosto de 2006

a dor, reflete nossa vida toda

Aqueles eram dias em que dar o braço a torcer era uma obrigação diária. Após passar o dia todo cantarolando uma música de beleza besta, de um cantor de infindáveis falsetes chegava quase a admitir que gostava dela. O tempo todo o casal da música rodopiava em sua mente, fazia o desenho dos pés deles em um chão imaginário "somos apenas dois mulatos", a rota das batidas do tambor a levavam até ele.
Antes dele era impossível, para ela, compreender as paixões alheias, mas vê-lo tocando transformava o mundo em algo muito simples. Voltava sempre ali, para observá-lo de longe pois longe era o lugar que ele tinha na vida dela.

sábado, 26 de agosto de 2006

Palavras que estragam

As vezes as palavras estragam tudo, vide exemplo nas legendas das fotos abaixo.

"A Arquitetura se afirma ora como uma caixa de luz, ora como objeto opaco, ora como volume translucido, ora como um camaleao engolido pela natureza." Posted by Picasa

"Foi uma oportunidade para pensar a casa nas suas caracter�sticas essenciais, ou seja, como abrigo para o homem em meio � natureza." Posted by Picasa

sábado, 19 de agosto de 2006

Duas Avenidas distintas e paralelas.Ligavam a parte nobre e sofisticada da cidade até a parte central. Nunca havia dado tanta importância para elas. Era óbvio também, que gostava muito mais da parte central delas, do que do lado sofisticado. Aprendera facilmente a gostar do tosco, do velho e das ruínas.
Achava irônico como a fisionomia da cidade mudava de quadra para quadra, havia tanto planejamento, tantas restrições e leis e burocracias, que visivelmente não serviam para nada. Há tempos descobrira que não existia verdade alguma na vida real, descobrira isso em uma aula sobre vigas e lajes no qual era dito assim: "Vocês fazem essas contas, certo? Mas já existe um programa que faz tudo isso com mais precisão e mais rapidez. E na hora de construir vocês verão que vai ter que usar sempre um pouco a mais ou um pouco a menos de concreto.Sendo assim tudo isso serve apenas de baliza, nada é exato." Uma aberração para alguém que gostava tanto do 0.00, dos traços ortogonais, firmes e limpos. Embora ela mesma não conseguisse fazer isso, deixava o papel sempre um tanto borrado e seus desenhos tinham traços de pessoa indecisa.
Agora tinha a certeza do motivo pelo qual gostava tanto da parte velha da cidade, tudo era tão rabiscado e cheio de informações. E havia sempre aquela fachada que servia apenas de cenário, pois o resto da casa já tinha sido demolido, com uma pintura tão velha quanto ela em fontes garrafais escrita VENDE. Pelo menos naquela não havia uma placa da Valentina Caram, uma mulher certemente abominável.
Mas na área nobre haviam as árvores sempre tão bonitas, canteiros milimétricamente aparados por algum restaurante chique, que cuidava com gosto e orgulho daquela parte tão importante para a cidade. Com casas projetadas por pessoas inovadoras, tão inovadoras que todas tinham o mesmo aspecto: fachadas com volumes ortogonais e revestimentos da úlitma moda. Tudo era tão perfeito naquela parte que até a idéia de cidades-jardim era quase cumprida, não fosse pelas grades que cercavam o lote.
E tudo passava tão rápido de dentro do ônibus que até os desenhos tortos de símbolos da cidade em um muro de super-mercado não eram tão tortos assim.

domingo, 13 de agosto de 2006

Pé com Pé

Não era sempre que pensava naquela roda, mas quando o fazia a sua imagem era nítida. Ali de baixo via apenas um homem com gorro marrom. Lembrava-se de todo o trajeto pelo "palácio" e da naturalidade incomun entre duas pessoas que não precisam ser além do que já são. Ao olhar o casal, lembrou-se dele. Ela quieta, grávida, com um olhar distante. Ele falante, apaixonado, falava dos brinquedos que seriam comprados para o guri e com o pé descalço carinhava o pé calçado da mulher. Pela primeira vez não sentiu náusea ao ver a demonstração de carinho entre um casal apaixonado. Normalmente o som do beijo alheio a irritava e as implicâncias entre duas pessoas que são cúmplices faziam com que a comida voltasse para a garganta.
Talvez por isso, a imagem do homem de gorro era tão nítida. Faltava ali a pretensão, o objetivo. Olhar o jardim com luzes verdes era naquele instante mais interessante e mais importante que saber os gostos do outro. Era aquele egoísmo não muito usual entre duas pessoas que acabaram de se conhecer que transformaram tal episódio num acontecimento quase como a passagem do cometa Halley.

quinta-feira, 3 de agosto de 2006

Coletivas

"- Para o sujeito falar outras línguas, é só colocar uma batata-quente na boca dele que ele fala rapidinho."
"- Não minha filha, obrigada. Já desço ali no alto da Teodoro. Mas estou parecendo tão velha assim?"
"- Ô vô tá chegando? Ô vô acho que o senhor tá me enganando. Vocês adultos tem mania disso, mas eu lembro bem que ali naquela loja foi onde a mãe não quis comprar o brinquedo pra mim e ali tava lonjão!"
"- Ih moça, com essa Halls aí a gente não trabalhalha mais não. Mas temos esse mendorato por R$0,50."
"- Mas será que hoje em dia a pessoa pra mandar não precisa mais saber fazer o que tá mandando? É vai ver que o conceito de chefe, mudou!"
"- Ô Chico, pare de se preocupar. O ano tem 365 e as vezes 366 e em todos eles você vai ter sempre alguma coisa pra fazer. E pro teu governo, você não fica mais rico nessa vida não!"