quinta-feira, 22 de junho de 2006

Por ali sempre tocava alguma música regravada, desta vez parecia Roberto Carlos "das lembranças que guardo da vida você é a saudade que eu gosto de ter..." enquanto imaginava a saudades de Roberto, foi acordada por uma buzina estridente. Olhou para trás e viu que no meio da rua em que acabara de passar, o quê estava ali no canteiro central não eram sacos de estopa, eram pessoas aquecendo-se no sol da tarde fria de outono.
Puniu-se de mentira. Acostumara-se com aquilo e ainda sim sentia-se humana, sem dó ou compaixão.
Na tarde que caía flácida, ela olhava o buraco que escavavam no chão, ali do alto da passarela. Não estava só, ao seu lado mais meia duzia de pessoas estavam fascinadas com toda aquela solidez, garantia de segurança e comididade crescendo, tornando-se cada vez mais próxima e real. A maioria daqueles que estavam lá com ela, haviam passado pela rua de canteiros humanos. Não queria saber se sentiam-se tocados com a cena, queria saber se algum deles olhou aquele canteiro e viu mais do que sacos de estopa.

terça-feira, 6 de junho de 2006

Madeira Palace Hotel

O homem de ombros caídos contava e recontava as figuras do álbum enquanto ela preocupava-se em não ultrapassar os limites do morango que coloria. Era como se estivessem sozinhos ali, vez em quando ele perdia a conta da figurinha-vale-brinde e ela, olhava pra cima relembrando de um sorriso estranho que a perseguia há tempos. Um sorriso cínico, de um homem de bigode e que para alguém tão nova era o diabo que lhe sorria, enquanto ela escondia-se atrás do ombro do avô.
Desesperadamente procuravam dentro da sala algo que lhes desse a certeza de que estavam ali sozinhos. Os morangos acabaram, os adesivos também. O quadro que descrevia o "Madeira Palace Hotel" fora completamente desvendado pelos dois. Era nítido a insatisfação deles com o fato da sala ser tão pobre em cacarecos. Um quadro, três sofás, revistas em uma mesa de centro. Não havia rachaduras na parede, mofo no teto, tacos soltos no chão. Uma perfeita sala de tortura, para quem procura não notar o outro.
Por fim, ele tirou uma nota de 10 reais e a entregou. Não disse nada e saiu com calma.