sábado, 25 de março de 2006

conversa entre mãe e filho

"-O que é uma 'base comunitária'?
- Hummmm... é uma base, da comunidade e que anda pra lá e pra cá!
- Ah tá."

segunda-feira, 20 de março de 2006

"Passando manteiga no pão"

Voltava feliz pra casa, um pouco contrariada por mais uma casa demolida no caminho, mas voltar a pé era sempre um consolo. Olhava a todo instante para o céu, sabia que dali a instantes começaria chover. Ao sentir os primeiros pingos d'água e ver que as folhas estavam voando em rodamoinho, arrependeu-se de não ter pego um casaco. Não fazia frio algum, mas não era necessário o frio para que tivesse medo de chuva.
Ao cair o primeiro raio, entrou em uma oficina velha. O dono, um velho que fumava charuto, na verdade era uma sombra que assumia formas horripilantes quando a luz oscilava. Estava só com aquela mancha que a todo instante a fazia lembrar do refão: "A velha, com a faca na mão... passando manteiga no pão, passando manteiga no pão".
Ele não falava nada, apenas deu um pedaço de bolo dormido e foi juntar-se a escuridão. A chuva estiou, saiu correndo espalhando bolo por todo lugar. Andava pela rua, pois toda sombra na calçada pareca um velho dono de oficina ou a merda de algum cachorro. Por um instante odiou todos os donos de cachorros e os próprios cachorros, por se deixarem domesticar. A única coisa que não odiava naquele instante era a sandália, talvez fosse porquê a tivesse ganho de uma mulher que provavelmente já tinha esquecido dela.
Entrou no quarto correndo, ainda com o pedaço de bolo não mão, colocou o casaco na bolsa...

quinta-feira, 9 de março de 2006

Era a primeira vez que via uma prostituta tão perto e tão constantemente. Todas as vezes que passava em frente a estação, ela estava ali no bar de azulejos coloridos. Ela não se parecia com nenhuma prostituta que já ouvira falar, tinha os dentes podres, as pernas com cicatrizes, não existia ali qualquer vaidade. Mas no cabelo, sempre havia alguma coisa diferente, desta vez era um aplique loiro de fios de naylon que berravam em seu cabelo crespo castanho.
Gostava de olhar aquela mulher, parecia sempre bêbada, sempre se oferecendo. Tinha medo que ela a notasse, tinha medo que qualquer um daqueles mendigos sonâmbulos, cambaleantes pela estação a notassem.
Sentia curiosidade em se saber alheio ao seu redor, num estado de transe eterno. Em que dormir na calçada, com um cobertor rosa em pleno meio-dia fosse coisa banal.
Não havia glória nem romance em nada daquilo que via e nem nela que notava, mas não conseguia tirar os olhos daquilo.

quinta-feira, 2 de março de 2006

Hotel Glória

Era uma odalisca de 5 anos de idade, fazia poses para a mãe que sorria sem parar, ao fundo uma fanfarra com um cantor que desafinava algumas marchinhas de carnaval. Em todo o salão haviam crianças preocupadas com confetes e avós que relembravam os velhos tempos de baile.
Toda criança carregava em si uma alegria besta causada pela mesma batida e pelo som do trompete insistente. Do lado de fora do parque passava um bloco de homens fantasiados de bailarinas que gritavam e pulavam feitos loucos, hipnotisados por uma alegria que era imposta naqueles dias.
Ela gostava daquela alegria, gostava de saber que em pelo menos uma segunda-feira do ano tudo giraria em torno dessa hipnose. Deixou-se levar por um olhar há tempos esperado...