domingo, 30 de outubro de 2005

Os muros cobertos de hera a encantavam, parecia que aquele lugar sempre fora dela. Àquela hora do dia com o sol ainda por sair o verde parecia mais escuro e dava ao lugar um sentimento de cheiro de chuva. O seu lugar no ônibus, era sempre aquele ao lado da janela em que pudesse ver o muro.
Mas naquele dia olhou para dentro dele e viu uma cesta de basquete. Sentiu seu estômago embrulhado, o pão rápido do café parecia agora eternamente entalado em sua garganta. Aquela cesta era de alguém, aquele muro era de alguém, tomaram dela naquele instante tudo aquilo que delicadamente construíra.
Cada folha, cada pensamento, cada sorriso em segredo (afinal, não era normal gargalhar sozinha dentro do ônibus). Tudo jogado fora por uma cesta de basquete.

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sexta-feira, 28 de outubro de 2005

Respire fundo

O ônibus não passava nunca. Era um domingo a noite em uma rua deserta que tinha um ar de cansada do dia cheio que teve. Papéis no chão, paredes acinzentadas pela fuligem, fios de eletricidade que formavam um desenho desorganizado.
Olhou para seu reflexo na poça d'água e estava disforme, assim como a lembrança que tinha das pessoas, dos lugares. Percebeu que nunca guardava na memória o todo, mas sim algumas partes do objeto lembrado e que de alguns nem lembrava mais. Sentiu uma culpa por se deixar esquecer, mas sabia que também já fora esquecida.
Pensou se ele ainda lembrava da sua risada, do jeito de olhar, do toque, do perfil ou de alguma parte dela que ela nem sabia que tinha. Buscou-o dentro si, tentou juntar seus fragmentos - as mãos, os olhos, a forma de arrumar o cabelo - com toda a ternura que conseguia lembrar dele mas parecia que a dor constante fazia com que ela parasse no meio. Não conseguia sentir ternura por inteiro.O ônibus finalmente chegou, ao entrar não lembrava mais que tentava respirar fundo, até o fim.

domingo, 23 de outubro de 2005

Dentro do ônibus o garoto a olhava com olhos de adulto. Tinha no máximo três anos, mas seu olhar era antigo, que olhava devorando o quê via. Ela tentou decifrar aquele olhar e segui-lo. Sentia que ele percorria insistentemente a passarela que apontava na paisagem distante.
Na passarela havia um homem sozinho que andava de um lado para o outro, parecia que procurava algo perdido na paisagem.
O ônibus aproximava-se cada vez mais da passarela e os dois, em uma disputa silenciosa, tentavam achar o quê o homem procurava incansavelmente. Olhavam os galpões abandonados, as casas cinzentas, o céu fechado, caçavam no dia abafado alguma pista. Existia entre os dois um sincronismo de movimentos, um acordo secreto.Mas o ônibus foi mais rápido que eles...

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quinta-feira, 13 de outubro de 2005

O dia passava lento dentro da casa escura. O lustre antigo de cristal, o velho bibelô de porcelana, as cortinas de renda já puídas davam à casa um aspecto de monotonia. Parecia que dentro daquela casa era sempre outono.
A moça esperava ansiosa, há tempos não colocava dois pratos na mesa, há tempos tudo era um no seu mundo, há tempos brincava sozinha de se perder dentro da própria casa que mais parecia um labirinto de portas que dão para quartos vazio, de quartos vazios que se emendam em outros quartos vazios, de outros quartos vazios que terminam em corredores, de corredores que acabam em janelas que nunca se abrem.
Mas naquele dia não havia sentido os jogos solitários, aquele era o dia de arrumar a cama, bater o sofá, abrir as janelas, escolher a roupa mais bonita pra depois fingir que a escolha fora feita ao acaso. Às nove horas ele chegou, a mesa posta, o sorriso aberto, o encantamento. Não havia o quê falar, histórias, promessas, estragariam o instante. Restava apenas observar seus gestos, perceber o encanto que há num homem enquanto ele janta. As mãos ásperas, o jeito de segurar o talher, os grandes goles de vinho, o modo como parte o pão. Sem perceber faziam movimentos sincronizados, sem querer admiravam-se, não nomearam o quê já haviam esquecido...