quarta-feira, 28 de dezembro de 2005

3x4

Sentiu aquele bafo no rosto, um calor que trazia poeira junto e tornava tudo pegajoso ao seu redor. Atrás, havia uma banca de churrasquinho que gritava ao seu lado uma música que falava de perfumes roubados, deu o braço a torcer e sofria junto com o cantor de interpretação afetada.
A cada ônibus que passava protegia-se da água espalhada e da raiva que sentia devido a espera. Começou a criar imagens em sua cabeça, todos eram fotos agora. Aprisionados em uma 3x4, tentavam fugir de lá, mas brincando de deus ela comandava os passos de cada foto.
A música agora, chegava na parte dos olhos tristonhos e que talvez sonhasse seus sonhos por fim. Ela olhava agora o mundo através do rosa do celofane de um bombom, cada 3x4 tinha agora um colorido tão carinhoso que chegava a doer...

quinta-feira, 15 de dezembro de 2005

E naquele instante, ela só queria que ele passasse a mão em sua cabeça. Dizia não torcendo ansiosamente pelo sim, a paisagem passava por ela em um fim de tarde triste em que tudo parecia se desfazer e se diluir, no borrado da velocidade.
Seu corpo todo tensionado, desejava apenas um gesto que nunca era adivinhado. Pensou na quantidade de vezes em que buscava ser descoberta, adivinhada, eram inúmeras as vezes. Mas nada, nunca saía como o esperado...
Culpava-se pela espera, culpava-se pela fuga, aquele era mais um dia que dormiria apertada...

quinta-feira, 1 de dezembro de 2005

Dardanelos

A garota atrás dela, mastigava de boca aberta um pão de queijo, o barulho da mastigação a irritava e lhe causava ânsia. A fila desalinhada para subir no ônibus a fazia lembrar das penas 0,1 e 0,2, dos comandos ortogonais, do quê estava mais perto e do quê estava mais longe dentro dos desenhos em fundo preto.
A garota continuava a mastigar.
A família, sempre presente nos primeiros lugares da quarta fila, estava lá. A filha sempre de boca aberta, a mãe séria com cabelos grisalhos presos em um rabo-de-cavalo torto, o pai, mais baixo que a mãe, todos os dias procurava algo nas outras filas.
Ela também procurava algo, todas as vezes em que passava na rua Dardanelos. Pensava no estreito de Dardanelos e em como seria um lugar com esse nome, imaginava que talvez ele fosse parecido com o Estreito de Gibraltar. Lembrava-se da professora de matemática, com seus dedos finos, cabelos desgrenhados e de seu anel de brilhantes solitário. Assim como ela, que vivia em meio aos netos e uma filha com a testa manchada de vermelho por conta da tintura mal aplicada.
A moça de voz aguda ao seu lado a fez esquecer do anel de brilhantes, agora ela concentrava-se no barulho do motor, para não prestar atenção na conversa aguda. Tentava abstrair a todo momento aquela voz, mas quando caia em si já estava completamente envolvida na conversa banal de falas marcadas...