sábado, 28 de abril de 2007

no tapistala o balacobaco é fala com fala...

Era muito cedo para que fosse possível pensar em algo, olhou o vão do MASP sujo e bem lá no fundo um casal sentado num banco de pedra, que parecia olhar atento o quase movimento da Avenida que passava embaixo. Na manhã fria uma árvore grande e florida chamava mais atenção do que os carros que passavam lentos, com motoristas sonolentos. De manhã a cidade suja do dia anterior, parecia toda em construção.
Tinha que andar rápido para acompanhar seu lado direito, lembrou daquele que era sempre presente nas manhãs de muito tempo. Quando ainda carregava uma pasta de plástico preta, grande e desajeitada, ele já estava lá sentado com uma bolsa de desenho engraçado e que mais tarde descobriria ser um modulor, palavra estranha, quase desnecessária. Mais tarde os encontros eram esparsos, quase nunca acertavam os horários e a vida seguia rumos opostos mesmo tão perto um do outro. Até que em uma manhão de segunda-feira descobriam-se de novo, dessa vez sem pasta grande e sem bolsa modulor.
Todos os dias se reconheciam, esboçavam um olhar desinformado e ainda faltava muito para qualquer sorriso. Sempre de manhã, com o rosto inchado, com marcas do travesseiro. Na volta quase nunca se viam, talvez fosse pela vida desregrada de quem trabalha sem fundo de garantia. Adivinhava seu humor, seu mau-humor e criava uma vida alheia cheia de altos e baixos para quem demonstrava-se sempre tão constante. O celular tocava sempre na mesma hora e ele atendia falando baixo, com sono, mas com obediência. Era uma mulher, a mãe super protetora, a namorada super protetora, a noiva super protetora e a mulher super protetora. A possibilidade de uma avó preocupada ou uma tia velha, por quem tenha sido criado, não cabia na situação.
Afinal de contas, apenas mães, namoradas e esposas são capazes de passar uma calça com vinco milimétricamente certo. E ele, mesmo sendo fã de modulores e ortogonalidade não tinha a tão aparentada paciência para vincos em calça.
O teto aberto apontava ao longe, mais dois passos seria o momento de continuar a história no dia seguinte.

domingo, 15 de abril de 2007

Eram todas muito coloridas, verde, dourado, azul, amarelo, lilás, verde metálico, azul metálico, amarelo metálico... mas a cor predominante era o rosa. Todas eram princesas e quem tivesse uma bolsa daquelas, certamente seria uma princesa também. Algumas eram moranguinhos, outras fadinhas e até gatinhas, mas inevitavelmente todas eram princesas. Não importando muito a procedência ou o sangue azul.
Encontrou entre tantas princesas, um zíper em forma de morango esperando parado para ser aberto. Primeiro parou e pensou em quem foi capaz de imaginar aquele detalhe, no segundo seguinte abriu a bolsa e para sua supresa sentiu um cheiro de plástico-suco-sanduíche-de-pão-de-forma-amassado. Finalmente percebeu que aquilo não era apenas uma bolsa, mas uma lancheira.
Talvez pelo cheiro, talvez pelas cores, ou talvez pelo pé machucado dentro de um sapato novo que lhe causava bolhas. Queria aquela lancheira para si. Era o que mais desejava naquele instante, agarrar aquele cheiro e aquela vida de sentar em fila e de sempre esquecer de comprar a rosa pra ave-maria no dia 05 de maio.
Olhou para o lado e abriu um sorriso para a moça com sardas que a olhava com ar inquiridor e já acostumado aos caprichos, de quem pensa que cheiros são assim, agarráveis.
Pensou mais uma vez no cheiro, colocou a lancheira na prateleira, olhou o zíper. Pensou que talvez não fosse fácil ser princesa de novo e que o sapato podia lacear com mais facilidade, pois ter bolhas por todo o pé não era próprio para uma princesa.