Entrou no salão e reconheceu a música que tocava, um antigo sucesso de Maria Bethânia, agora na voz de um homem de camisa roxa que falseava: "chega de tentar dissumular e disfarçar e esconder...".
Aquele lugar, antes tão sonhado, agora lhe era completamente estranho. As cortinas de veludo vermelho, o lustre de cristal que parecia prestes a cair, o provável cheiro de mofo, misturado com perfume barato e com o suor dos casais que dançavam na pista, os vestidos de cetim barato, o amendoim na mesa .
Não entendia o porquê mas gostava daquilo, gostava daquela decadência, dos sorrisos partidos, do falso bolero que a fazia lembrar da mãe cantando, da estranheza que ele lhe causava. Identificava-se com toda aquela encenação, almejava fazer parte daquilo, pertencer a algo. O que era seu, era apenas aquele mundo que criou e que se desfazia constatemente e ela queria mais, queria poder dar a algo, a alguém o que tinha de melhor e pior em si. Os dois sim, porquê queria ser inteira e queria o inteiro de algo e de outro.

