domingo, 18 de setembro de 2005

Maria Bethânia, camisas de cetim, amendoim barato...

Entrou no salão e reconheceu a música que tocava, um antigo sucesso de Maria Bethânia, agora na voz de um homem de camisa roxa que falseava: "chega de tentar dissumular e disfarçar e esconder...".
Aquele lugar, antes tão sonhado, agora lhe era completamente estranho. As cortinas de veludo vermelho, o lustre de cristal que parecia prestes a cair, o provável cheiro de mofo, misturado com perfume barato e com o suor dos casais que dançavam na pista, os vestidos de cetim barato, o amendoim na mesa .
Não entendia o porquê mas gostava daquilo, gostava daquela decadência, dos sorrisos partidos, do falso bolero que a fazia lembrar da mãe cantando, da estranheza que ele lhe causava. Identificava-se com toda aquela encenação, almejava fazer parte daquilo, pertencer a algo. O que era seu, era apenas aquele mundo que criou e que se desfazia constatemente e ela queria mais, queria poder dar a algo, a alguém o que tinha de melhor e pior em si. Os dois sim, porquê queria ser inteira e queria o inteiro de algo e de outro.

domingo, 4 de setembro de 2005

Cata-Vento, Catavento ou cata-vento

Aquele som lhe parecia familiar, som de metal batendo em metal. Olhou em volta e viu um vendedor de algodão-doce e cata-vento sentado sozinho na tarde quente de domingo. Mas aqueles não eram os cata-ventos de papel colorido de sua infância, mas sim de metal e que faziam um tilintar característico todas as vezes que ventava. Sentiu pena do vendedor.

Ventava forte e o som do cata-vento, cada vez mais constante, a irritava. De modo que passou a odiar o vendedor .

Porém ela sabia que que não era o vento, não era o barulho, não era ele. Mas era a piedade que ele causava nela. Odiava sentir pena de alguém, porquê na verdade era a pena que sentia de si. Daquilo que escondia dos outros dentro dela, lá no fundo para que ninguém conseguisse notar, nem ela mesma. E um vendedor de algodão-doce e cata-vento, em um domingo quente e amarelo, numa rodoviária cinza e inóspita, a fez lembar do quão egoísta é.

Enquanto o odiava, pensava: "Mas quem ainda compra cata-ventos? Ainda mais cata-ventos de metal, que ficam tilintando irritantemente!". Sentia um gosto vitorioso na boca, devido ao fracasso do vendedor, quando para o seu espanto, surge um senhor que compra três cata-ventos, um para si e os outros dois para seus netos. Aquilo era demais, não suportava aquela alegria toda, aquele pieguismo enquanto ela estava disposta a sofrer! Saiu correndo dali, correu para uma rua deserta, parou cansada e chorou sozinha.