segunda-feira, 25 de abril de 2005

Reflexões sobre o amor

“ou, em outras palavras, estou dizendo que o amor é a condição dinâmica espontânea de aceitação, por um sistema vivo, de sua coexistência com outro (ou outros) sistema(s) vivo(s), e que tal amor é um fenômeno biológico que não requer justificação: o amor é um encaixe dinâmico recíproco espontâneo, um acontecimento espontâneo, um acontecimento que acontece ou não acontece (...) e, uma vez que eu digo que os fenômenos sociais são fenômenos que se dão na deriva estrutural espontânea co-ontogênica, eu também estou dizendo que o amor é o fundamento do fenômeno social e não uma conseqüência dele, e que os fenômenos sociais, em um domínio qualquer de interação, duram somente enquanto o amor persistir nesse domínio.(...) O amor consiste na abertura de um espaço de existência para um outro em coexistência conosco, em um domínio particular de interações. Como tal, o amor é a expressão de uma congruência biológica espontânea, e não tem justificação racional: o amor acontece porque acontece, e permanece enquanto permanece. O amor é sempre à primeira vista, mesmo quando ele aparece após circunstâncias de restrições existenciais; e isso é assim porque ele ocorre somente quando há um encontro em congruência estrutural, e não antes. Finalmente, o amor é a fonte de socialização humana, e não resultado dela, qualquer coisa que destrói o amor, qualquer congruência estrutural que ele implica, destrói a socialização. A socialização é o resultado de operar no amor, ocorre somente no domínio em que o amor ocorre.
Há diversas dificuldades em se entender ou aceitar o que eu disse sobre o amor. Mencionarei duas delas:
A) queremos que o amor seja algo especial, e dizer que ele é um fenômeno biológico, uma mera recorrência de interações, não é agradável, destrói um mito. O amor não é um fenômeno especial do ser humano, mas em humanos ele pode se dar em algumas poucas dimensões, como a envolvida na simples coexistência do viajar juntos em um trem, em respeito mútuo; ou pode se dar em muitas dimensões como quando duas pessoas vivem juntas, como um casal que se ama; ou pode mesmo se dar nas dimensões peculiares de coexistência como a de alguém que tem um animal de estimação. O que é especialmente humano não é o amor, mas o que fazemos no amor enquanto humanos.
B) Queremos que o amor seja uma conseqüência da socialização, não sua fonte, porque nós queremos que as relações que destroem o amor, como a competição, sejam relações sociais legítimas. A competição é anti-social. A competição, como uma atividade humana, implica na negação do outro, fechando seu domínio de existência no domínio da competição. A competição nega o amor. Membros das culturas modernas prezam a competição como uma fonte de progresso. Eu penso que a competição gera cegueira, porque nega o outro e reduz a criatividade reduzindo as circunstâncias de coexistência. A origem antropológica do homo sapiens não se deu através da competição, mas sim através da cooperação só pode se dar como uma atividade espontânea através da aceitação mutua, isto é, através do amor.(...)
É através da razão que afirmamos que a vida humana deve ser subordinada a alguma finalidade transcendente. Mas o amor, anseio biológico que nos faz aceitar a presença de outro ao nosso lado sem razão, nos devolve a socialização e muda a referência de nossas racionalizações. A aceitação do outro sem exigências é o inimigo da tirania e do abuso, porque abre um espaço para a cooperação. O amor é o inimigo da apropriação."
A ontologia da realidade
Maturana, Humberto R.

segunda-feira, 11 de abril de 2005

Medo do mar

Ela olha para si e sente medo de confessar-se. Lembra de quando bateu o dedão do pé no batente da porta e sentiu a sua carne latejando, sentiu a vida pulsando.Desejava aquela sensação de novo. Seu corpo, agora, pulsa. Mas por dentro ela se contrai toda, com medo. Parece que não pertence a nada, que não se deu a nada.
Entra no mar, o vai e vem das ondas a deixam tonta. Imagina o mar à noite e sente medo, medo de tudo aquilo que não pode ver. Ao passar a arrebentação fica aflita, tem medo de que algo puxe seus pés, começa ir cada vez mais para o mar aberto, mas o medo a faz voltar para areia.
Sentou na areia e ficou olhando a senhora sentada ao seu lado. Torcia para que ela não notasse que estava sendo observada e assim, desandasse a falar. Olhou para a mão dela, uma mão pequena com unhas bem pintadas e pensou em como uma pessoa que já não llembrava mais em que mês estava, poderia lembrar de pintar as unhas. A senhora começou a falar sobre o pôr-do-sol, no colorido dele e que desde pequena ela gosta de ver o pôr-do-sol mas que não entende como uma coisa que acontece todos os dias é diferente em todos eles. Ela pensa que também gosta das coisas que se repetem mas nunca são as mesmas.

terça-feira, 5 de abril de 2005

Armazém

Quando passaram pelo armazém, ela já não escutava mais as histórias dele. Afirmava sim com a cabeça mas seu único desejo, naquela hora, era ser o prédio do outro lado da rua que parecia estar em eterna construção. Ele lembrava um personagem tirado de alguma situação passada, estático e como tudo agora lhe parecia ser. Os dois passaram pelo prédio, ele terminou suas histórias e os dois já não falavam mais.

segunda-feira, 4 de abril de 2005

Sentada na escada, ela olha e vê que realmente não pertence àquela situação. Não pertence à música que toca, àquela alegria das pessoas que estão dançando na sua frente.
De repente alguém lhe dá uma cotovelada na testa, é um homem. Um homem que usa uma camisa vermelha e que parece não saber como se desculpar. Tudo acaba sendo uma encenação, os dois sabem que o esabarrão não doeu tanto e que os intensos pedidos de desculpas não são tão sinceros assim. Por um instante os dois tentam agarrar o momento, mas esse escorre rapidamente pelas mãos. Ele vai pra fila do banheiro e ela vai dançar.